Não Somos Gangue!

Não somos uma gangue! Não somos um partido político! Somos um coletivo de Skinheads Antifascistas, composto por anarquistas e comunistas! Acreditamos na igualdade de todos os seres humanos, sem bandeiras, sem separatismo, sem preconceito ou qualquer barreira, seja ela de classe, cor de pele ou orientação sexual. Nossa principal atuação é no meio contracultural em que estamos, levando nossos princípios de esquerda e princípios libertários, atuamos através da propaganda antifascista, mas vamos além disso, procuramos atuar junto à classe trabalhadora, o verdadeiro pilar da sociedade, a luta do trabalhador, do pobre, do explorado, essa é a nossa luta. Defendemos a cultura Skinhead, cultura que nasce nos subúrbios ingleses, de uma juventude de imigrantes jamaicanos, negros, e da juventude inglesa trabalhadora das periferias, fabricas e portos. Cultura de união, diversão, futebol, cerveja, e luta, porém uma luta de cabeças, não de botas e facas. Dos que nos oprimem nada esperamos. Esperamos apenas de nossos irmãos de classe.



segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Flicts: Enquanto houver vida... haverá um motivo pra lutar!



Foi durante os votos de "Feliz 2010" que o baterista do Flicts nos deu uma notícia que há muito tempo aguardávamos:

"O Flicts vai voltar em 2010. Estamos ensaiando, compondo. Aguarde. Assim que for rolar show, aviso você. Dá esse salve pro povo todo do RASH, ok?".

Pois bem, é isso mesmo que vocês leram acima! Também não acreditei, o nosso pessoal também não acreditou, mas o Rafa tem palavra e agora é aguardar!
Aproveitamos então a ocasião para divulgar a “boa nova” e também fizemos uma entrevista com Rafael o "Professor", baterista da banda de Punk Rock Flicts, concedida ao coletivo RASH SP e que você acompanha agora na na íntegra:

RASH-SP: O principal motivo para o Flicts encerrar suas apresentações (contínuas) em 2005 foi o fato da banda começar a tomar um rumo que você não queria, no sentido de dimensão e também o lance do seu desânimo com a cena punk/Oi! em São Paulo/SP, o que fez você anunciar que não tinha mais interesse em tocar e o Arthur acabou lhe acompanhando nessa decisão para que a banda não perdesse a característica que tinha com os dois juntos há mais de 10 anos e então o Flicts acabou, OK? Te conhecendo um pouco, sabemos que vocês estão voltando a tocar pelos amigos e para os amigos (a princípio), porém nos conte mais sobre essa decisão, de quem surgiu a idéia e como surgiu.

Rafael: Quando decidi sair, foi porque, naquele momento, havia concluído que o Flicts não vinha efetivamente contribuindo para que a cena punk em particular, e a cena alternativa em geral, se tornassem menos infantis do ponto de vista da reflexão política e mais experientes e espertas do ponto de vista estratégico e tático.

O punk é um som de combate, ainda que simbólico e não físico necessariamente. Ser livre também é uma questão de combate, de luta. A liberdade que vem de graça não é liberdade. Tem que fazer por merecer. Ora, como podemos ser livres se reduzimos nossa visão política a chavões fáceis que, no fim, não significam porra nenhuma? Como podemos ser livres se nosso senso de luta, de fato, historicamente, na prática, não vai além de brigas de gangues e pelejas de rua?

Não estou dizendo que devamos ser tolerantes com fascistas, homofóbicos, sexistas, nacionalistas e essa merda toda. O que digo é que eu esperava que o Flicts contribuísse para que se pensasse e percebesse que a luta pela liberdade pode até passar por isso, mas vai muito além disso. O verdadeiro combate está no ato de entender os esquemas de poder, explícitos ou sutis, que nos cercam no dia a dia, as estratégias e grupos que sustentam esses esquemas, e em conceber formas de luta que sejam eficientes. Essa parada toda é mais ampla, mais complexa e mais dura do que enfrentamentos entre punhados de punks e punhados de carecas, por exemplo.


E nisso, o Flicts falhou. Os shows eram cheios, a galera curtia, cantava junto, participava das gigs e, em vários casos, assumia o papel de protagonista do evento, deixando a banda em segundo plano. Isso era muito legal. Mas era insuficiente para mim. Fiquei decepcionado e resolvi sair, o que desencadeou o fim da banda. Então por que voltar agora? Agora o Flicts vai conseguir contribuir com essa ampliação do senso de luta, de visão política? Não sei. Não é por isso que estamos voltando. Não estamos voltando porque agora temos certeza de que conseguiremos agilizar, sozinhos e em pouco tempo, o desenvolvimento de forças libertárias. Somos apenas uma banda e esse processo é longo e complicado demais para apenas três negos com instrumentos e letras legais. Mas quando notamos isso, quando sacamos que esse processo é difícil, árduo e prolongado, pensamos nos amigos que continuaram e continuam tentando e que deixamos para trás quando paramos. Da minha parte, rolou aquele sentimento de "Caralho! Deixei o pessoal na mão!".

Foi por esse pessoal que voltamos: as bandas com quem temos mais contato e afinidades, as bandas que respeitamos, os amigos, os coletivos (como o RASH) e por aí vai. Além disso, nesse tempo todo, muita gente me parava pra conversar sobre o fim do Flicts, me dizendo que a banda e as músicas os ajudavam a aguentar as pequenas batalhas cotidianas que também são importantes, seja o emprego de merda, o pé na bunda da namorada, a família repressora e por aí vai. Também deixamos esse pessoal na mão. Por isso também, voltamos.


Os inimigos estão em todos os lugares, agindo de várias maneiras, refinando suas ações. E nós? Vamos ficar geograficamente limitados a esse ou aquele bairro? Esse ou aquele bar? Fechados ao diálogo e chutando todo mundo que não seja "punk/skin de verdade"? Tretando até a morte com carecas como se eles fossem os inimigos mais perigosos? E as estratégias empresariais que fodem com a nossa vida? E o contingente militar/policial de centenas de milhares de agentes? E o sistema judiciário e penal injusto? E as estruturas políticas hierarquizadas? E a confusão que se faz entre liberdade e felicidade e o acesso a bens e serviços, como se ser feliz fosse questão de poder comprar carros, casas e frangos apenas? Recuso-me a acreditar que as tretas de rua são mais importantes e que fodem mais com a minha vida do que isso tudo. Se aparecer, estamos aí. Como canta Zeca Pagodinho, "confusão eu não arrumo, mas também não peço arrego". Porém, eu tenho mais com que me preocupar. Um punhado de fascistas desorganizados não vai ditar nem desviar minha maneira de lutar só porque são trogloditas cheios de músculos. A existência deles é possível porque há um sistema econômico, político e cultural que, de alguma forma, os sustenta. Destrua esse sistema e eles desaparecerão.


Por isso é preciso tirar a luta do gueto, levá-la ao maior número possível de gente, criar caminhos de diálogo com pessoas que não fazem parte da cultura punk/skin, ligar a vida cotidiana e individual às necessidades mais coletivas, tudo isso mantendo a integridade, as raízes e as características de banda punk libertária. Esse é o nosso desafio agora.


RASH-SP: Como está a programação para esse retorno? Vocês já estão ensaiando, existe alguma data definida, composição nova, etc? E a formação da banda, como está? A mesma formação de quando a banda parou de tocar (Rafael "Professor" (Bateria), Arthur (Vocal e Guitarra) e Jeferson (Baixo))?


Rafael: Estamos ensaiando uma vez por semana. Acreditem, nem quando a banda estava na ativa antes, a gente ensaiava com essa frequência. Estamos com "fome de bola", empolgados como fazia tempos que não ficávamos. Estamos compondo, tentando levar o som adiante, sem perder a personalidade. Isso é complicado. Quem tem banda por um certo tempo saca o quanto é difícil inovar sem se descaracterizar. Mas não se preocupem: seguiremos sendo o Flicts e vocês todos vão gostar dos sons novos. A formação segue sendo a mesma.

RASH-SP: Você está tocando no Extra Stout, esse projeto continua com o retorno do Flicts, você vai tocar os dois projetos em paralelo ou há alguma mudança. O Arthur e o Jeferson também têm seus outros projetos (Naifa e Agrotóxico respectivamente), nada muda também a princípio?

Rafael: O Extra Stout, banda de ska na qual toco bateria, segue adiante e está terminando de gravar sua primeira demo. O Naifa e o Agrotóxico também seguem. O que muda nesse sentido é que o Flicts reaparece como aliado na luta por amadurecimento político, combatividade, ampliação, estruturação e melhoria da cena alternativa, ao lado do Naifa, do Agrotóxico, do Extra Stout, do Juventude Maldita, Invasores e por aí vai.

RASH-SP: O Flicts canta amizade, liberdade e anarquia, nessa mesma linha, quais são as bandas que vocês mais se identificam?

Rafael: Dentro do universo do dito punk (a acepção mais ampla que isso possa ter), por vários e diversos motivos, variando de banda para banda, eu me identifico com os clássicos do punk rock, do Oi! não fascista e do hard core: The Clash, Cock Sparrer, Klasse Kriminale, La Polla Records, Los Muertos de Cristo, Circle Jerks, Dead Kennedys, The Business, Hard Skin, Los Violadores, Doble Fuerza, 2 Minutos, Os Excluídos, Juventude Maldita, Agrotóxico, Invasores de Cérebros e várias outras.




RASH-SP: O Oi! está presente na rotina da banda, seja musicalmente, como uma banda que canta coisas simples, do dia a dia, como cerveja, futebol, orgulho de classe operária, amizade, os refrões em coro, seja como movimento mesmo. E no passado você já esteve na RASH SP também. Você tem contato hoje com outros skins antifas no Brasil e pelo mundo a fora? Na tour pela Europa, conheceram muitos skins antifas? Como foi a relação com os torcedores dos St. Pauli, muitos skins?


Rafael: Na tour que fizemos em 2004 e na viagem que fiz em 2002, conheci apenas skins antifascistas. A convivência entre eles e os punks era não apenas tranquila, mas de colaboração estreita. Sobretudo no que conheci mais: o RASH Milão e os torcedores do St. Pauli. A sede do RASH Milão ficava em um bairro cercado de squats de imigrantes ilegais vindos da África, América Latina e Leste Europeu, muitos deles frequentavam a sede e as atividades da RASH. Já em relação ao St. Pauli, o nome vem do um bairro de Hamburgo onde fica o estádio do clube. É um bairro que agrega boêmios, artistas, malucos, punks, skins, a galera GLBT, imigrantes, os velhinhos que sempre moraram no bairro e por aí vai. E tudo isso se reflete na composição da torcida: um monte de gente diferente; todos antifascistas. Uma coisa posso dizer: os skins que torcem para o St. Pauli são todos antifascistas.

No restante dos lugares, via-se sempre punks, anakopunks, skins tradicionais, sharps, rashs e indivíduos sem ligação com esses grupos juntos em várias ocasiões, fazendo as paradas coletivamente. É bom perceber que por aqui as coisas estão caminhando nesse sentido, com punks e skins da RASH SP em integração.


RASH-SP: Nos fale de uma maneira comparativa sobre como a banda vê a cena punk / Oi! de quando vocês começaram a tocar há quase 15 anos atrás para essa mesma cena hoje. Estamos te perguntando isso por que sabemos que o Flicts também tem sua importância numa pequena quebra de paradigmas quanto ao Oi! mais recente no Brasil, pois sabemos que muita molecada começou a gritar "Oi! Oi! Oi!" mais abertamente nos shows de vocês.


Rafael: É. A culpa é toda nossa! (risos). A verdade é que já se sacava pelas gigs e pelos rolês, várias pessoas que usavam um visual bem skin, mas que todo mundo sabia que eram anarquistas, que andavam com os punks e que eram confiáveis. Isso sempre teve. O Flicts só amplificou ou catalisou um pouco essa parada. Abrimos uma caixinha de Pandora quando assumimos nosso caráter de banda Oi! anarquista, mas não fizemos isso sozinhos. O fato é que esse lance deu nó na cabeça de alguns, a maioria entendeu, curtiu, aprovou, outros tantos "saíram do armário", podendo usar suas camisetas e gritar nos shows, mas sempre tem aquela galera mais estúpida que entende tudo errado e acaba confundindo Oi! com troglodice fascistóide, seja para nos criticar, nos acusando de carecas, seja se tornando careca mesmo. Mas é uma minoria. Ainda bem.


Sobre a cena punk e skin, como a vejo e quais são os desafios que acho que ela tem, acredito que já respondi anteriormente. É preciso sair do gueto. Manter a personalidade, mas encontrar caminhos de diálogo e integração com outros grupos e pessoas. O Los Muertos de Cristo e style=""La Polla fizeram isso na Espanha, resto da Europa e América Latina. O 2 Minutos, na Argentina. O Los Fastidios, na Itália. São bandas punks, anarkopunks ou skins, mas com um público variado que compartilha certos valores positivos como o antifascismo, a aversão ao preconceito etc. Nos squats em que tocamos, o mesmo se repetia: punks e skins conviviam com pessoas de diversas procedências, todos compartilhando esses valores positivos. Por que não podemos ampliar a cena alternativa por aqui, nesse mesmo sentido?

RASH-SP: As brigas entre gangues de idiotas que se dizem punks / skins aumentaram muito em São Paulo/SP, por outro lado, também temos muito mais skins com postura séria e anti-racista nas ruas e não apenas idiotas que cultuam violência, orgulho vazio e cerveja, temos a RASH SP que firma uma união importante com alguns coletivos punks, temos organizados festivais antifas, temos também o pessoal do Y&M, que faz um bom trabalho de divulgação da música jamaicana e junto com ela vem a história do movimento skin. Como o Flicts vê toda essa movimentação? Estamos no caminho certo? O Flicts pretende em letras futuras falar mais desse tema abertamente?

Rafael: Como disse nas respostas anteriores, eu vejo tudo isso de maneira muito positiva. Esse é, não apenas um caminho legal, mas o mais necessário para que não fiquemos presos ao gueto e sejamos esmagados. Precisamos atrair, nos juntar e integrar indivíduos que proponham e acreditem em valores positivos e libertários de alguma forma, ainda que minimamente. Imaginar que todos vão se tornar punks, skins, comunistas ou anarquistas é ilusório, mas tem muita gente por aí que é contra o racismo, o sexismo, a homofobia, a mercantilização da vida etc. Precisamos ampliar a cena para que dentro dela caibam todas essas pessoas, ou pelo menos, para que possamos nos integrar a elas. O Ariel, dos Invasores, uma das cabeças mais lúcidas do punk, costuma citar uma frase bem legal, acho que do zapatista Subcomandante Marcos: Lutamos por um mundo onde caibam muitos mundos!


Nesse sentido, o Flicts vai continuar fazendo as letras como fazíamos antes: em alguns momentos, vamos tratar de temas mais específicos desse universo punk/skin (essa é a nossa raiz, nossa força, nossa personalidade), em outros, vamos tratar de temas mais universais, que tocam não apenas os punks e skins, mas também as pessoas que, de alguma forma, têm algum senso de equilíbrio entre individualidade e coletividade, que querem um mundo melhor e mais livre de fato, num sentido libertário mesmo sem ter consciência disso. Sempre houve nos shows do Flicts, pessoas sem vínculo com o ambiente punk/skin, mas para quem as idéias de liberdade e amizade eram fundamentais. É nisso o que acreditamos e é isso o que vamos seguir cantando, pra quem quiser ouvir. Desde que não seja fascistóide nem disfarce seu fascismo sob alegações babacas do tipo "Não sou homofóbico, racista nem separatista. Só tenho orgulho de ser heterossexual, branco e de ser do meu estado". Eu não caio nessa. É o mesmo tipo de lorota que é o RAC. "Não somos nazistas, somos apenas anti-comunistas". Historicamente nesse país, e pela experiência que tenho "de rua", quem afirma o orgulho de ser hétero, branco, paulista (ou carioca, ou paranaense, ou sergipano etc.), e anti-comunista/anti-anarquista é, quase que com certeza, fascista. É questão de tempo até revelarem a verdadeira face. Até que me provem o contrário, sigo acreditando nisso.



RASH-SP: Ainda na questão desses idiotas que citamos acima, no ano passado na turnê do Rasta Knast [Alemanha] em São Paulo/SP, houve um show deles em Campinas/SP em que o Flicts tocou e tivemos um caso que te deixou bem chateado, 1/2 dúzia de imbecis que insistiam em boicotar a nossa (RASH + Punks com quem estávamos) diversão, afirmando um bairrismo desnecessário que gerou pequenas brigas e quase que o fim do som de vocês. Há menos de três meses no show do Exploited, você estava conosco e presenciou um ato enorme de covardia, de mais de meia dúzia de caras que espancaram um único indivíduo. Fatos como esses ainda existem (vide os exemplos citados) e ocorrem também nos shows de vocês, agora nessa nova fase do Flicts, como pretendem encarar isso?

Rafael: A cultura punk e skin no Brasil, historicamente, têm muito de ganguismo. A parada mal começou, em 1978, 1979, e em 1980 já havia uma porrada de gangues. O punk inventou as gangues? Não. Elas sempre existiram nos bairros de periferia, ou nos bairros centrais que são mais pobres. No meu bairro havia a treta entre Os Locais e a Zeus (pronuncia-se "Zéus"). Éramos todos punks? Não. Éramos pixadores. Na matriz da Freguesia do Ó sempre rolava treta durante a Feira das Nações (espécie de quermesse). Eram punks? Não. Era treta entre bairros próximos e ninguém nem lembrava mais a causa. Todo mundo que viveu algum tempo "na rua" sabe que existe esse lance de "bairro tal contra bairro tal", "rua tal contra rua tal", "escola tal contra a escola tal". Essas tretas ficavam geograficamente limitadas, mas quando surgem as culturas ditas juvenis, como a punk, a skin, a metaleira, ou a cultura das organizadas de futebol e outras, esse limite geográfico vai pro espaço, porque essas culturas se movimentam pela cidade e redefinem o ganguismo. No futebol, as organizadas incorporaram isso. No da música, o movimento punk incorporou isso e a cultura skin também.


Ao mesmo tempo, com raras exceções, a politização dessa galera não passa da reprodução de chavões e da leitura de meia dúzia de panfletos. Politização de fato não há. Ou seja, para mim, as tretas entre skins, punks, headbangers, skatistas, rollers, rappers, hooligans e o que seja não têm porra nenhuma que ver com política na maioria dos casos. A política é só o verniz. O lance é a cultura ganguista, negativa, infantil, impulsiva, maniqueísta e por aí vai. Não é política "de gente grande". No geral, não é anarquismo e comunismo contra fascismo nem vice-versa. Passa longe disso. Alguns ganguistas já assumem isso: que o lance deles é ganguismo puro, sem qualquer intenção política.


Para mim, essas tretas que você citou vêm dessa tradição ganguista. Sei que o RASH não é ganguista, assim como muitos punks não são, mas num universo historicamente ganguista, muita gente só consegue ver as coisas assim, por esse prisma. Para eles, míopes que são, o RASH ou os coletivos punks politizados e organizados são gangues também e é assim que eles se relacionam com esses coletivos. Aos olhos dessas pessoas, os shows, os bares, as baladas são os espaços onde as gangues se encontram. Para eles, nesses encontros, a violência está sempre presente porque quem vive no mesmo universo deles, mas não é da mesma gangue, é sempre um inimigo em potencial. O que leva à formação da gangue é um sentimento de insegurança individual, projetado nos outros. Assim, o inseguro encara como inimigos em potencial, todos aqueles que ele identifica como pertencentes ao universo dele, mas que não são da mesma gangue. E se junta a um grupo para autodefesa, para afirmação pessoal ou ataque preventivo. É isso o que diferencia uma gangue de um grupo sólido de amigos. Amigos não se juntam necessariamente para se auto-defenderem nem atacarem, e nem vêem os outros grupos de amigos potencialmente como inimigos. Os amigos se divertem. Os ganguistas só se divertem quando batem em alguém e assim superam ou compensam, triste e momentaneamente, o sentimento de insegurança. Para o ganguista, portanto, qualquer coletivo tende a ser visto como gangue e como inimigo em potencial e as tretas justificam umas as outras. "A gente quebrou o fulano porque, um tempo atrás, fulano quebrou o ciclano. Mas fulano quebrou o ciclano porque o ciclano “pilantrou” o beltrano". E assim vai até o início dos tempos. Por isso tudo, acho que as tretas costumam ser frequentes, não apenas em shows punks, mas em praticamente todo lugar onde você reúne jovens de procedências diferentes, seja o baile funk, a balada de playboy, a festa de formatura etc.


O Flicts acredita que as tretas são, coletivamente, frutos do infantilismo político e, individualmente, resultado de uma estrutura psicológica ou caráter fraco e inseguro. Como procuramos lidar com isso, desde o começo da banda? Por um lado, contribuindo com o amadurecimento político da cena, como disse no começo, e com a ampliação da mesma para que ela receba pessoas de outros lugares, onde o ganguismo é menos presente. Pode parecer bobagem, mas todo mundo sabe que os mesmos ganguistas que vão aos shows e bares alternativos, com a intenção de intimidade e tretar, também vão a outros lugares onde se comportam de maneira exemplar. Que lugares são esses? O ambiente de trabalho, o shopping center, o cinema, a livraria, a faculdade, o boteco perto de onde mora, o churrasco da família, o supermercado etc. Por quê? Porque esses lugares não reforçam a cultura ganguista e, neles, o ganguismo não faz qualquer sentido, nem mesmo para o ganguista. O amadurecimento da cena como um todo, pode torná-la um ambiente maduro, politicamente mais sério, com forte espírito coletivo, e que, portanto não reforce o ganguismo e onde ele também não faça mais sentido. Por outro lado, continuaremos fazendo o que sempre fizemos nas poucas vezes em que rolaram estranhamentos em shows do Flicts: vamos nos envolver para que a treta não aconteça, seja conversando com os envolvidos antes do show, seja parando a apresentação e colocando nossa postura de firmeza contra a violência desse tipo, seja fazendo discursos diretos no palco, contra os indivíduos ganguistas ou fascistóides que, por descuido, provocação ou burrice, tenham aparecido nos shows, deixando claro que não gostamos da presença deles. Foi isso o que fizemos em Campinas, por exemplo. Estávamos lá, antes do show, conversando com os envolvidos para que a treta não acontecesse e ao longo da apresentação, estávamos atentos para qualquer evento mais sério. Mas não podemos achar que cabe à banda apenas desfazer esse equívoco que tem pelo menos 30 anos. Isso cabe a todos que têm algum senso político mais profundo e que fazem parte da tal cena.


RASH-SP: Chega de perguntas, antes que você desista de juntar esse bando de bêbados novamente pra tocar para mais um outro bando de bêbados (risos). Mas o coletivo RASH SP esteve presente em praticamente todos os shows do Flicts nos últimos anos, então mais do que ninguém somos amigos da banda e estamos ansiosos por esse retorno, que seja no mínimo como antes, clima de amizade no som de vocês, é o que deseja o coletivo RASH SP. E aproveitando a oportunidade, gostaríamos de ter vocês tocando em um festival aberto, organizado pela RASH SP. Deixe aí pra gente algumas palavras em nome da banda, tanto para o retorno de vocês, para o coletivo RASH e para o fiel público de vocês em geral.


Rafael: Eu tenho um carinho muito grande pelo RASH SP e uma amizade sincera por todos aqueles integrantes que conheço pessoalmente. Eu vejo o RASH SP como um aliado nesse movimento de amadurecimento e ampliação política da cena, para torná-la mais positiva, aberta e propositiva. Se não formos capazes de promover esse amadurecimento, esse crescimento, seremos arrastados pelas imposições da cultura ganguista e/ou da cultura pop, tornando-nos também ganguistas, respondendo na mesma moeda, ou virando apenas mais uma cultura "de juventude", com seu visual, suas gírias, seus "points" e aquela merda toda que a Veja costuma publicar quando fala das "tribos jovens". O punk, o rock e o RASH precisam ser mais que isso. É bom tê-los ao nosso lado nesse caminho.

5 comentários:

Vidiball Oi! disse...

Q boa noticia! Começamos bem o ano com os caras de volta! Parabéns ao pessoal da RASH! Vamos lutar!

Oi!

Janaina disse...

Parabéns pela matéria e parabéns ao Rafa por ter resgatado junto com os outros Flicts a banda que sempre ajudou a travar as pequenas batalhas do dia, o Flicts nunca deixou de falar aos nossos corações, que venha logo o primeiro show!

Camilo Maia disse...

Camaradas, estou emocionado... Não apenas pela fuderosa volta do FLICTS, mas sobretudo por essa entrevista incrível, pela clareza política e humanista de nosso amigo Professor!... Esse aí tem muito o que ensinar, mesmo!! ...E que 2010 venha recheado de novas canções de batalha na nossa marcha dia a dia! Vida longa, solidariedade!

Leonardo Branco disse...

É isso aí camaradas, eu, o Camilo e todos da banda Subversivos (Recife-PE), estamos muito felizes com a volta do Flicts à luta! Esperamos desde já, o dia em que nos encontraremos no palco para unir nossas forças contra a real opressão das oligarquias que tentam controlar os rumos da humanidade!
Até a vitória!

fernando disse...

Parabéns pela entrevista! É bom saber que uma das bandas mais influentes do cenário punk/oi! Nacional está de volta. Na vdd nunca estiveram de fora, estiveram sempre presentes com as poesias que já cantaram.
E que venham mais shows, recheados de amizade e liberdade!

F.R.S. Punk