Não Somos Gangue!

Não somos uma gangue! Não somos um partido político! Somos um coletivo de Skinheads Antifascistas, composto por anarquistas e comunistas! Acreditamos na igualdade de todos os seres humanos, sem bandeiras, sem separatismo, sem preconceito ou qualquer barreira, seja ela de classe, cor de pele ou orientação sexual. Nossa principal atuação é no meio contracultural em que estamos, levando nossos princípios de esquerda e princípios libertários, atuamos através da propaganda antifascista, mas vamos além disso, procuramos atuar junto à classe trabalhadora, o verdadeiro pilar da sociedade, a luta do trabalhador, do pobre, do explorado, essa é a nossa luta. Defendemos a cultura Skinhead, cultura que nasce nos subúrbios ingleses, de uma juventude de imigrantes jamaicanos, negros, e da juventude inglesa trabalhadora das periferias, fabricas e portos. Cultura de união, diversão, futebol, cerveja, e luta, porém uma luta de cabeças, não de botas e facas. Dos que nos oprimem nada esperamos. Esperamos apenas de nossos irmãos de classe.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Entrevista - Stage Bottles


Às vezes anti-social, mas sempre antifascista! Este é, traduzido para o português, o título de um dos discos da banda alemã Stage Bottles. Formada em 1993, a banda é até hoje umas das mais relevantes bandas skinheads antifascistas do cenário europeu. O primeiro lançamento da banda ocorreu no mesmo ano de sua formação e foi o EP "They are Watching Me" e no ano seguinte veio o primeiro LP: "Corruption and Murder", de lá para cá foram mais 4 discos solos, além da participação em coletâneas, discos ao vivo e splits. Musicalmente a banda combina Punk Rock, Oi! e Ska e além de baixo, guitarra e bateria, utilizam um saxofone. A formação atual é a seguinte: Olaf (Vocal, Saxofone) Marcel (Guitarra), Easy Dan (Guitarra), Kimba (Baixo) e Simon (Bateria). O Stage Bottles é umas das bandas mais ativas da Alemanha, se gabam de já terem tocado em mais de 400 shows e o fato é que a banda já dividiu o palco com The Oppressed, Angelic Upstarts, Los Fastidios, Klasse Kriminale e muitos outros expoentes da cena punk e skin européia. Eles mesmos dizem que as origens da banda estão na formação do movimento SHARP na Alemanha, por isso é que eles estão até hoje na linha de frente da cena Skinhead antifascista!

Nós do coletivo RASH SP, fizemos contato no mês de julho/2010 com o vocalista da banda - Olaf - para uma entrevista exclusiva, que você acompanha a seguir. Olaf atendeu nosso pedido com muita rapidez e respondeu todas as perguntas com boa vontade e interesse. Acompanhem:

RASH SP: O Stage Bottles é uma banda com praticamente 17 anos de existência, num espaço de tempo assim muita coisa aconteceu e vocês mudaram a formação várias vezes. Qual a formação atual?

Olaf: Nós tivemos muitas mudanças na linha de frente da banda. Nos últimos 07 meses nós tivemos que praticar com um novo baterista e um novo guitarrista, então nós não fizemos muitos shows. A formação atual é Marcel e Slavko na guitarra, Olaf (número 02) na bateira, Kimba no baixo e eu, outro Olaf, no sax e no vocal.

RASH SP: E ainda nesse espaço de cerca de 17 anos, quantos álbuns vocês lançaram ? E vocês têm idéia de quantas gig’s tocaram?

Olaf:
Nós já lançamos 05 álbuns. Demora cerca de três anos para que nós façamos um novo álbum. Nós lançamos alguns 7" e fizemos alguns “splits” com várias bandas. Nós também lançamos algumas músicas exclusivas em compilações. Eu não sei quantos shows nós fizemos, mas deve ser algo em torno de 500.

RASH SP: Outro aspecto que sempre se relaciona a bandas com um bom tempo de estrada são as mudanças na sonoridade e na mentalidade. Com todas as mudanças na formação, como isso afetou vocês, em termos de sonoridade e mentalidade?

Olaf:
Boa pergunta. Com as mudanças pelas quais passamos nós tivemos alguns problemas com diferentes mentalidades dos membros da banda. Claro, de algum modo cada membro da banda estava envolvido no universo punk rock, skinhead ou futebolístico. O estilo musical sempre foi de agrado de todos os membros, mas o nosso último guitarrista que deixou a banda, por exemplo, queria se tornar mais bem sucedido e tentar fazer com que outro tipo de público ouvisse o Stage Bottles. Porém o Stage Bottles é uma banda do meio subcultural que canta sobre nossas vidas. E não é fácil que as maiorias das pessoas entendam um verdadeiro modo de vida da maneira que nós entendemos com o Stage Bottles. Então, não seria necessário mudar nossas letras e parte da nossa identidade para que outras pessoas passassem a ouvir a banda. Acredito que esse seria o fim da banda, já que o que o Stage Bottles faz no momento é o que o Stage Bottles realmente é.

RASH SP: O Stage Bottles é uma banda declaradamente antifascista, então diga-nos como é essa questão na Alemanha e na Europa hoje. Qual a extensão dos grupos e organizações fascistas na sociedade alemã e européia? E como tem sido enfrentar esses grupos?

Olaf:
Quando a banda começou a cena era bem menor e nós e nossos amigos éramos um grupo de skins antifascistas. Portanto, nós fomos confrontados por nazis desde o começo da banda. Nós tocamos em gig’s nos anos 90 com o Cock Sparrer por exemplo, e tinham nazis no show. Nós e nossos amigos os atacamos e eles tiveram que deixar o show. Fascistas nos shows é uma coisa. Outra coisa é que nós conhecemos muitas pessoas de lugares alternativos na Europa toda. Lugares alternativos não são realmente adorados pelos nazis. Então nos sentimos solidários com tais lugares e fazemos concertos sociais, por exemplo, ou os ajudamos fazendo segurança ou algo do tipo. Nós às vezes tocamos em gig’s em cidades que os nazis estão marchando ou “recrutando”, e nós então damos apoio aos antifascistas seja tocando ou apenas estando com eles. Outra coisa é que nos interessamos e procuramos informações sobre os nazis e o que eles fazem.

Nós temos uma forte rede de apoio e então nós não somos realmente confrontados por nazis nos nossos shows, e sim em algumas outras ocasiões, como demonstrações antifascistas. É estranho o quão forte os nazis são. No momento, eles estão tentando ter uma imagem mais normal. Estão tentando se envolver numa vida pública mais normal. Principalmente no Leste europeu, onde as pessoas ainda estão procurando por sua identidade, eles estão se tornando mais fortes e mais violentos. Mas há também algumas partes na Alemanha que eu seria bem cauteloso.


RASH SP: Ainda considerando a postura antifascista da banda, vocês fazem parte de algum grupo ou organização política?

Olaf: Não, nós somos completamente independentes. Nós trabalhamos com diferentes pessoas que estão envolvidas com organizações distintas. Nós também nos recusamos a trabalhar com pessoas que, apesar de esquerdistas ou antifascistas, não passam de idiotas. Nós nunca daremos apoio a stalinistas, por exemplo.

RASH SP: Aqui no Brasil a imagen dos Skinheads ainda é muito associada ao neonazismo e ao racismo. Como está a cena Skinhead aí na Europa atualmente, considerando tanto a parte musical como os problemas relacionados com a vinculação da imagem dos Skinheads ao neonazismo e ao racismo?

Olaf: Nós começamos a construir o movimento SHARP (Skinheads Against Racial Prejudice) há cerca de 20 anos atrás. Roddy Moreno, vocal da banda “The Oppressed” de Cardiff/País de Gales/Inglaterra o trouxe de Nova Iorque. Nós organizamos a marcha skinhead, concertos e entrevistas na TV. Por causa do SHARP várias bandas Oi! e de Street Punk se criaram. Então, é realmente uma grande cena. Algumas pessoas ainda acham que skins são nazis, mas no geral o público sabe que skinheads não são sempre nazis.


RASH SP: Vocês tem uma musica chamada Hooligan. Então para que times torcem?

Olaf: Essa música não se trata apenas de futebol. Eu escrevi a letra. O motivo desta música é a questão do por que eu comecei a me envolver em brigas, apesar de ter tido uma boa educação, tocar instrumentos e ter terminado de freqüentar a universidade e etc. Então, se você tiver um forte sentimento de justiça e falar não surtir mais efeito e nem fazer mais sentido, você começa a ser agressivo e tenta seguir suas crenças através de ações físicas. Aí você é meio que um hooligan.

Mas a música é também sobre o hooliganismo no futebol. Às vezes é divertido ter brigas no futebol, apesar deu tentar não me envolver mais nelas. Eu não quero perder meu emprego e não quero ir para o hospital ou me machucar e ter que cancelar shows por conta disso.

Eu torço pelo “Fortuna Duesseldorf” (segunda liga); dois de nós torcem para o “Frankfurt” (a principal cidade da nossa área – primeira liga) e o resto da banda não liga muito pra futebol.

RASH SP: Como vocês vêem o hooliganismo comum e despolitizado e a questão que envolve as torcidas fascistas e antifascista?

Olaf: Muito frequentemente depende de que cidade o grupo hooligan vem. Frankfurt é ok, Duesseldorf não é mau. Mas há sempre o perigo de hooligans serem meio que de direita.

Vários deles são nascidos nos guetos, não tendo uma socialização descente. Então provocação é muito importante. E provocar fingindo ou sendo um nazi, sempre funciona.

Mas, nos últimos anos, muitos hooligans, especialmente líderes que envelheceram, querem ser anti-sociais num nível melhor. Então eles tentam não aceitar nazis nos grupos deles. Alguns gurpos de hooligans são oficialmente antifascistas. E outros ainda são completamente influenciados pelos nazis.

RASH SP: Alguns de vocês também integram o Blaggers ITA. Como vocês estabeleceram esse vinculo com uma banda inglesa?

Olaf: Eu era um membro do Blaggers ITA de 1992 até 1993. Eu até morava em Londres nessa época. Aí eu e o Marcel (também guitarrista do Stage Bottles) estávamos envolvidos na junção em 2001. Estou cantando perto do cantor de hip hop Christy agora. Nós nunca fizemos novas músicas. Nós só tocamos em 05 shows por ano e em sua maioria, gig’s antifascistas. Em 2001 nós tocamos pela primeira vez, pois uma organização chamada de IWCA (Independent Working Class Association – Associação Independente da Classe Trabalhadora) precisava de dinheiro para as eleições para prefeito de Londres. Membros do Blaggers estavam envolvidos nesse grupo político. Nós arrecadamos 6.000 euros – entre 2001 e 2003. Foi um grande sucesso. Depois disso algumas pessoas ainda estavam interessadas em fazer gig’s do Blaggers, então nós continuamos.

RASH SP: Nos chegam aqui as notícias sobre a atual crise na Europa e as manifestações na Grécia. Como vocês analisam essa crise e o que vocês pensam que pode acontecer a partir dela?

Olaf: Minha análise: algumas pessoas só pensam em acumular capital. Eles não estão nem aí para o que está acontecendo. Eles pensam que o ponto principal de ser livre na nossa assim chamada democracia é a liberdade de levantar o máximo de dinheiro que você puder. Eles se esquecem da liberdade de outros que dependem do trabalho, da educação correta, etc. E a sociedade ainda pensa que “merdas acontecem”. Eu acho que é um problema do espírito das nossas sociedades. Responsabilidade social não é tão importante quanto se tornar rico. Eu jamais faria algo na minha vida que repercutisse negativamente na vida de outra pessoa, apenas para ter dinheiro e poder.

Porém, outras pessoas fariam e são protegidas pelos políticos. E políticos são frequentemente, parte do sistema. Muitas coisas são feitas apenas porque os países querem ser economicamente fortes. O sistema no qual vivemos faz com que isso seja necessário, mas alguém sempre sai perdendo. E, se muitas pessoas perdem, nós entramos em crise e todos parecem se surpreender com isso. Eu conversei com o corretor da bolsa que é envolvido com a cena hooligan de Frankfurt. Ele disse que sempre avisou aos colegas para serem cautelosos. Eles não ouviram. Ele disse que sempre soube o que estava acontecendo. Outros também deveriam saber disso e não estavam nem aí. E apesar de terem ferrado sociedades inteiras, não foram responsabilizados de forma correta.

Então, acontecerá de novo e de novo se não houver uma séria mudança. Mas se você falar sobre outro modelo de sistema, você é tido como um comunista ou um terrorista intelectual que quer acabar com a chamada democracia. Portanto o sistema não é capaz de curar a si mesmo. O sistema é falho e a maioria ainda pensa que é culpa de erros individuais.

RASH SP: Por fim, agradecemos por concederem a entrevista e fica aí o espaço para um recado final.

Olaf: É uma pena que o Brasil seja tão longe. Nós ouvimos dizer que vocês têm uma cena bem viva e que nós realmente deveríamos tomar conhecimento dela. Talvez algum dia. Falem com a gente caso alguma banda brasileira interessante venha à Europa. Talvez nós possamos encontrá-los e dar suporte a eles.

Saudações,

Olaf/Stage Bottles.

2 comentários:

Racismo não! disse...

Entrevista foda, Olaf parece ser realmente uma pessoa prestativa.
Ainda é quase utópico pensar num som dos caras aqui no Brasil, mas já fico feliz em ver a mobilização de algumas bandas que estão tomando o posicionamento antifascita aqui,a música é um importantissimo meio para alertar os jovens sobre as ruas e as idiotices que os boneheads tentam introduzir em suas cabeças.

Parabéns a RASH-SP pela mobilização nos últimos anos!

Xi Drinx disse...

dá inveja ver um movimento tão organizado e tão consolidado.